Publicada em 1928, a rapsódia de Mário de Andrade é uma odisseia antropofágica que redesenha o mapa do Brasil através do fantástico. A narrativa acompanha a trajetória de Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, em um deslocamento vertiginoso que ignora as fronteiras físicas do realismo. Do berço mítico nas margens do rio Uraricoera, na imensidão da mata virgem, o herói é arremessado para o epicentro da modernidade em uma São Paulo fabril e labiríntica. Nessa transição entre o arcaico e o moderno, o espaço geográfico torna-se elástico: em um único pulo, Macunaíma atravessa estados, fundindo as lendas amazônicas ao asfalto urbano, como se o país inteiro fosse um território onírico em constante metamorfose.
Ao “desgeografar” o Brasil, Mário de Andrade utiliza a errância do protagonista para costurar uma identidade nacional composta por retalhos de Norte a Sul. A selva, com suas entidades e transformações, dialoga com a metrópole do gigante Piaimã, criando um contraste entre a natureza sagrada e a “máquina” estrangeira. Mais do que um cenário, o espaço em Macunaíma é o próprio corpo da nação, um itinerário de descobertas linguísticas e folclóricas que convida o leitor a percorrer as veias abertas de um Brasil que é, ao mesmo tempo, ancestral e em construção.
O texto desta edição foi extraído de ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Brasília: Edições Câmara, 2017, disponibilizada em domínio público pela Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados.