Lisboa
Passagens Literárias
Macunaíma
Mário de Andrade
Lisboa aparece no horizonte de Macunaíma não como um lugar onde o herói pisa, mas como o destino final da sua história e da sua própria voz. No encerramento da obra, o narrador revela que tudo o que sabemos sobre as aventuras, as falas desaparecidas da tribo Tapanhumas e os feitos do “imperador do mato virgem” foi conservado por um papagaio verde de bico dourado. Após contar toda a saga para o homem que reconstrói a narrativa, o pássaro abre as asas e voa rumo a Lisboa. Na época em que Mário de Andrade escreveu o livro (final da década de 1920), Lisboa já era a capital consolidada de Portugal, mantendo o mesmo nome e status de hoje. Literariamente, esse voo da ave para a antiga metrópole carrega um simbolismo de devolução: a língua “impura” e brasileira, moldada pelas experiências de Macunaíma, retorna à sua origem europeia totalmente transformada. É como se o estoque de brasilidade, agora completo, fizesse o caminho inverso da colonização para ser guardado do outro lado do oceano.